A terra tem direitos e dignidade
As más notícias seguem-se umas às outras neste sofrido ano de 2010. Mal uma notícia alarmante deixa de ser manchete dos jornais, aparecem reportagens sobre as piores cheias, nunca antes vistas pela humanidade, sobre centenas de mortos, destruição de colheitas, das infraestruturas etc. Na maioria das vezes, são reações da natureza, que seriam normais, não fosse a frequência e intensidade com que acontecem atualmente. As alterações climáticas causadas pela ação humana demonstram a sua força destruidora. O mundo estará desmoronando? O que está claro é que o domínio habitual internacional das catástrofes já não é suficiente para nos tirar o medo do futuro.
O tema central da “Cúpula dos povos sobre as alterações climáticas” que se realizou em Cochabamba, Bolívia, em Abril deste ano foi, muito mais profundo do que as perguntas sobre as causas e as consequências das alterações climáticas. Trata-se, como sublinhou o Presidente Morales, no seu discurso de abertura, da dignidade e dos direitos da terra. A terra já não é objeto e posse do ser humano mas sujeito independente. A visão antropocêntrica do mundo, em que, dignidade o direito são atributos exclusivos do ser humano, dotado de inteligência, cede lugar a uma visão muito mais ampla. Precisamos compreender que somos parte de um todo maior e estaremos bem se o todo for respeitado e conservado. Neste aspecto, os povos andinos, sobretudo, conservaram, ao longo dos séculos, apesar de todas as aberrações do desenvolvimento industrial, o sentimento incontestável de que a terra é a Mãe Grande que produz tudo e tudo coloca à nossa disposição para que desfrutemos de tudo o que precisamos para viver. A terra é um macro-organismo vivo que se auto-regula, cuidando, protegendo e conservando a vida. Trata-se de uma biosfera quase inteligente na qual o ser humano pode se desenvolver e viver, se respeitar esta dignidade independente e, nela, proteger toda espécie de vida. Terra e ser humano formam uma unidade inseparável. Pode-se, inclusive dizer: a terra faz parte da dignidade e dos valores do ser humano
Esta devia ser a autêntica motivação para uma nova consciência ecológica. A exploração agressiva da natureza, com o desperdício desenfreado dos recursos limitados da terra, para obter lucro, é um atentado contra os direitos e a dignidade da terra. Na ocasião da Cúpula, foi discutido até mesmo, de que modo se pode processar juridicamente cada violação dos direitos da terra. Foi proposto um tribunal da ONU ao qual seriam apresentados os processos sobre a violação da dignidade da terra, destruição das selvas, poluição do ar e dos mares etc. como crimes contra a natureza.
Os peritos do clima asseguram que poderemos evitar o colapso do clima se diminuirmos drasticamente as emissões do dióxido de carbono. Isto requer uma economia sustentável e uma alteração do nosso estilo de vida. Vamos compreender e enfrentar o desafio de tecer uma relação fraternal e amorosa com todos os seres vivos nesta terra? Francisco já descobriu e viveu isto há 800 anos, de maneira exemplar. Este continua a ser o nosso compromisso especial.
Andreas Müller OFM
África
República Democrática do Congo: Cerimônia para retomada do CCFMC em Kinshasa
O dia 12 de Junho de 2010 marca a retomada oficial do CCFMC em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. Este evento realizou-se dentro de uma celebração na qual o bispo Stanislas Lukumwena OFM foi nomeado coordenador do CCFMC do Congo.
Citação: “O trabalho é muito; a espiritualidade franciscana deve chegar às nossas casas. O carisma franciscano precisa ser bem visível. Os irmãos e as irmãs necessitam mergulhar na espiritualidade franciscana. É por este motivo que abrimos o centro, para pôr à vossa disposição os instrumentos de trabalho que permitam assegurar a formação dos/das noviços/as, dos jovens membros da Ordem e, em geral, de nós todos. Cada comunidade vai nomear membros com capacidade para realizar a formação, quer dizer, animadores, que primeiramente são formados, para poderem depois formar os outros. Vamos apresentar temas que devem ser tratados durante os diferentes encontros. O acento está na espiritualidade franciscana e nos seus fundamentos. Também durante os retiros espirituais devemos cooperar, pois somos uma família. Vamos começar com Kinshasa e vamos a Lubumbashi, Bukavu, Kasai Brazzaville etc. Preocupamo-nos com toda a Família Franciscana”.
No final da celebração, Fr. Stanislas Lukumwena comunicou que será formada uma comissão específica para elaborar e realizar diferentes projetos.
Durante a sessão de diálogo que se seguiu, a assistência quis saber, entre outras coisas, quais as relações entre o CCFMC, o Instituto de Espiritualidade Franciscana em Roma e o Centro de Formação para missionários franciscanos na Bélgica, quais as experiências do CCFMC na Alemanha e, quais as relações que tem com outras instituições franciscanas.
Em vez do bispo Stanislas, queremos nós do Centro do CCFMC de Würzburg dar uma breve resposta:
O Instituto de Espiritualidade Franciscana de Roma participou na elaboração das lições do CCFMC. O curso foi esboçado, desde o princípio, como projeto interfranciscano; as direções gerais da Primeira Ordem, as Clarissas, as comunidades IFC-TOR e a Ordem Franciscana Secular Internacional estão representados na Equipe Diretora Internacional. O objetivo principal do curso consiste em tentar colocar os problemas de hoje numa perspectiva franciscana criando assim, uma consciência franciscana. As lições do curso respresentam uma base importante para o desenvolvimento de iniciativas e ações concretas na vida eclesíal e social. O centro do CCFMC na Alemanha coordena a distribuição do curso entre os irmãos e as irmãs de todos os ramos da família franciscana em todo o mundo cuidando da articulação com outras instituições interfranciscanas e com aquelas ONGs cuja ação se dirige para a justiça, paz e preservação da Criação. Continuamos a fazer a experiência de que o CCFMC tem levado a um maior sentimento de união das diferentes ordens e congregações se constituindo um elo de ligação e fonte de vitalidade para a Família Franciscana.
América Latina
Paraguai: Juventude rural no centro do trabalho do CCFMC
Ajudar a juventude a compreender melhor o amor à terra e à natureza com atividades agrícolas práticas, como a produção de adubo orgânico que depois é vendido, por exemplo, faz parte das atividades importantes do CCFMC em regiões rurais pobres do Paraguai. Irma Britez, a coordenadora do CCFMC do Paraguai, informa sobre este aspecto do seu trabalho.
Entre outras coisas, foram ajudadas várias associações comunitárias para melhorar as condições de vida dos membros. Esta ajuda refere-se, por exemplo, a um bairro especialmente pobre de Malloquín, no qual vivem mais de 100 famílias. Outro exemplo do engajamento especial dos membros da OFS é a produção comunitária de produtos agrícolas para vender, junto com comidas típicas, no mercado. O número de jovens que participam destes projetos nas diferentes comunidades, varia entre 30 e 50. As regiões, às quais se refere este tipo de ajuda prática do CCFMC são, entre outras: Encarnación, Caaguazú, Villa Rica, Pedro Juan Caballero, Nepomuceno, Maciel e Capiibary.
Entre as principais atividades do CCFMC realizadas em 2010, estão o seminário para a Região Cono Sur, que se realizou de 9 a 14 de Fevereiro na capital do Paraguai, Asunción; o encontro anual dos animadores do CCFMC que se realizou de 23 a 25 de Abril, que serviu para intercâmbio de experiências pessoais na vida franciscana e, no dia 22 de Maio, uma reunião dos coordenadores do Paraguai em Ciudad del Este, que serviu para o fortalecimento da equipe, mas também para definir o cronograma das atividades. Além disso, houve uma série de dias de ação, passeios ecológicos e eventos comemorativos.
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Sinais do tempo
Um ano catastrófico
O ano de 2010 vai ficar na história como o ano das piores catástrofes dos tempos por nós conhecidos. Logo a 12 de Janeiro, começou a série das notícias de horror ,com o cismo que assolou o Haiti. No verão, seguiram-se as cheias na China e no Paquistão; enormes incêndios de florestas na Rússia e, não por último, o gigantesco vazamento de petróleo no Golfo do México. O que resta são não só centenas de milhares de pessoas que choram por um igual número de mortos, mas também um meio ambiente devastado.
A extensão das cheias seculares, na província do Paquistão de Khyber Pakhtunkhawa, é completamente inconcebível. Cerca de 80 000 quilômetros quadrados ao longo do rio Indo, com os seus afluentes, estão inundados – aproximadamente a área de toda a Itália. As cheias não pouparam nada: aldeias inteiras, cidades, infraestrutura, a colheita – tudo foi destruído. 20 milhões de pessoas foram atingidas. Vai demorar anos antes de as pessoas poderem viver, outra vez, em condições seguras. E isso só será conseguido se, realmente, toda a comunidade internacional participar na reconstrução.
Incêndios da mata
Os arredores da capital, onde vivem, incluindo a cintura habitacional, 15 porcento da população russa, foram os primeiros a ser invadidos pelo espesso nevoeiro, causador de graves problemas respiratórios. Quem pôde fugiu para o campo ou para o estrangeiro, logo.
Desabamento de terra na China
Dois milhões de metros cúbicos de escombros deslizaram, numa avalanche de cinco quilômetros de comprimento e centenas de metros de largura, para a área habitada por 40 000 pessoas do rio Bailong no Tibet. Mais de 1750 pessoas perderam a vida. Chuvas torrenciais provocaram as avalanches na província de Gansu. Geólogos e ambientalistas, deste vez, estão de acordo: A verdade é que as tempestades foram a causa das catástrofes, porém, causas provocadas pela humanidade permitiram que tivessem sido tão devastadoras. De 1952 a 1990, foram abatidos em Zhouqu cerca de 130 000 ha de bosque duplicando assim as áreas cultivadas de 7000 ha para mais 14 000 ha.
780 milhões de litros – o maior vazamento de petróleo de todos os tempos
Segundo as mais recentes estimativas, se espalharam, até agora, cerca de 780 milhões de litros de petróleo no Golfo do México. Durante as manobras para estancar o petróleo feitas pela BP, sempre tem havido complicações.
Estes são só as maiores catástrofes deste ano que excedem as escalas normais. Poderia-se juntar muitas, mais localizadas, mas não são menos prejudiciais para as pessoas atingidas. São catástrofes que são devidas aos caprichos normais do tempo, mas muitas também são fruto da indevida intervenção humana. São resultados das alterações climáticas que foram provocadas por uma economia que já não se orienta pelos limites dos sistemas ecológicos globais. São sinais alarmantes que não devemos desconsiderar, sem sofrermos as consequências.

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