Podemos fazer mais do que nos julgamos capazes
“Observações sobre a crise econômica atual desde uma perspectiva franciscana” são os pontos principais da presente edição das Notícias. Fr. Bill Short OFM exige de nós refletirmos sobre os problemas bem estranhos ao projeto da nossa vida franciscana; pois, no que diz respeito à atual crise econômica e financeira, trata-se de padrões de procedimento quase contrários ao que pensam, vivem e fazem pessoas franciscanas. Nós, realmente não temos nada a ver com “hedge funds”, especulações com importâncias cifradas em milhões, pagamento de altas bonificações e valores de acionários. A leveza do ser, que deveria ser intrínseca do modelo franciscano de viver, não é compatível com este mundo.
Durante algum tempo parecia que a comunidade internacional tinha aprendido a lição da crise. Programas de salvação sobre vários milhares de milhões evitaram o colapso total do sistema financeiro. Por todos os lados, ouvia-se o apelo por um estado forte, por regulamentos e controles, pela comparticipação dos bancos nos custos da crise. Parecia que o mundo fantástico neoliberal, marcado pela cobiça, pelo excesso e o egoísmo tinha acabado definitivamente. Os G20 (os mais poderosos países industrializados e emergentes) decidiram medidas estritas que deveriam evitar catástrofes semelhantes. No entanto, em parte alguma, as medidas anunciadas não foram transformadas em leis concretas ou instrumentos eficazes. Pior ainda: o mundo financeiro parece ter-se restabelecido do choque e caminha rumo ao costumeiro pagamento de bonificações e do máximo lucro o mais rapidamente possível. Portanto, está muito longe do seu autêntico sentido de existência, isto é, ser servidor de uma economia real, orientada no bem comum. Para isto, falta-lhe o que Mikhail Gorbatchev chama de condição prévia para uma alteração no pensamento e na atuação: a espiritualidade, isto é, a consciência de que todas as atividades humanas estão interligadas no universo. O bem estar da humanidade só pode ser conseguido quando a totalidade (ser humano e criação) estiver bem. E “bem estar para todos” então, não depende do crescimento constante da economia e sim do fato de o indivíduo não acumular e possuir bens que excedam sua necessidade faltando para os outros para que também eles possam ter “qualidade de vida”; o bem estar de todos depende da justa distribuição dos bens.
Assim, entra em jogo a espiritualidade franciscana. Francisco segue esta leveza que Jesus recomenda e explicou com o exemplo dos lírios do campo e os pássaros no céu. Ninguém antes e talvez nem depois dele viveu tal tão conseqüente - e autenticamente esta proposta evangélica. Segue assim, a visão de uma vida justa em todas as suas dimensões, de uma civilização do amor – não só com todos os seres humanos, mas também com os animais, com todos os seres criados, com tudo o que existe. O centro desta visão formalmente ecológica é o Evangelho do Jesus manso e humilde, como Francisco gosta de dizer. O homem só pode ser tão desinteressado e livre – e precisamente isto é o mistério de Jesus, o mistério de Francisco de Assis – se se sentir de tal maneira protegido e acompanhado pela presença de Deus que não teme por sua vida e não tem necessidade de se agarrar em nada e nada assegurar.
Portanto, Francisco se casa, como diz, com a Senhora Pobreza. Não se trata de miséria, e muito menos do amor ao sofrimento ou de atitude de vítima autoflagelante. É, antes, a pobreza como liberdade interior, como comparticipação na vida de Jesus, como exercício de solidariedade com os outros seres criados e fidelidade à terra, como Deus manda. Não quer possuir nada. O dinheiro, especialmente, lhe causa horror, pois, segundo a sua opinião, cria, quase que forçosamente injustiças e desigualdades.
Não só naquela época, mas também no nosso tempo, houve altas autoridades eclesiásticas que menosprezaram esta atitude como fantasia. Francisco não se deixou impressionar por isto, ele seguiu a sua certeza interior: “Deus mesmo me revelou”. Se adotarmos outra vez esta certeza e a abertura do espírito, então podemos estar seguros de que Deus está entre nós também hoje e de que nós, sendo pessoas franciscanas, no fundo somos capazes de fazer mais coisas do que nos julgamos capazes.
Andréas Müller OFM
A Crise econômica desde uma perspectiva franciscana
Tem-se comentado muito sobre a crise que abalou o sistema financeiro internacional e arrastou inúmeras pessoas – sobretudo, provenientes das camadas mais pobres – para a miséria, para a ruína. Bill Short, na sua conferência, cita um dos aspectos que causou a crise: a concessão de créditos hipotecários de alto risco e o comércio com estes créditos na Bolsa, com o único fim de maximizar os lucros.
Qual a contribuição que uma perspectiva franciscana pode oferecer para o trato teórico, mas também prático desta temática? Fr. Bill Short oferece uma série de reflexões e respostas possíveis a esta pergunta:
1. O desejo de enriquecer à custa de outros é a raiz do pecado
Francisco de Assis diz na sua Admoestação II que o pecado de Adão consiste no desejo de agarrar, ter e possuir. Especial significado tem, como afirma Bill Short, a palavra utilizada no texto original em Latim appropiare, quer dizer apropriar-se de. Através da apropriação, isto é, tomando para si alguma coisa que não lhe pertence, fazendo-se dono dela, semeia-se o mal, como diz Bill Short. O contrário da dinâmica do pecado é a dinâmica de Jesus Cristo e do Evangelho; o viver sem nada de próprio, sem tomar as coisas para se apropriar delas, continua Fr. Bill.
Acrescenta que a avidez e a cobiça, seja na época de Francisco, seja em nossos dias, representam o contrário do “espírito de Deus e seu santo modo de operar” (RB X,9). São vícios e pecados e não vêm de Deus. Segundo Fr. Bill, seu oposto são a partilha e expropriação, exemplificadas na parábola do Bom Samaritano.
2. A exploração dos pobres é uma ofensa a Cristo
Sublinha Bill Short que os pobres são os representantes de Cristo e, portanto, devem ser tratados com respeito. Como exemplo, cita uma história da vida de São Francisco: Francisco repreende severamente um irmão que tinha criticado um pobre, exigindo que ele pedisse perdão ao pobre, pois “cada pessoa que fala mal dos pobres, ofende Cristo que, de rico se fez pobre por nós neste mundo”.
Especulações nos valores de propriedade, que estão na base da atual crise, prejudicam, sobretudo os trabalhadores. Se tratar uma pessoa de maneira injusta é errado, diz Bill, é totalmente condenável tratar assim famílias de trabalhadores pobres. Desde a perspectiva franciscana, deve-se qualificar esta “injustiça preferencial frente aos pobres” não só como delito, mas como crime gravíssimo.
A partir da história sobre a morte de um comerciante cobiçoso e injusto, que Francisco de Assis descreve na Carta aos Fiéis II, demonstra Fr. Bill Short como São Francisco vê “o pecado mortal”: como pecado da injustiça em assuntos econômicos, através de fraude em relação às pessoas. O pecado “econômico” exige penitência “econômica” que consiste em devolver o que se tem adquirido injustamente como pagamento aos defraudados. A manobra tão astuta quanto legal de doar os bens adquiridos através de fraude a parentes e amigos, é uma estratégia que não engana a Deus.
4. A esmola é herança e direito que se deve aos pobres
Se a exploração dos pobres é um exemplo dramático de uma vida contrária ao Evangelho, qual é, então, segundo o evangelho, a resposta à crise financeira? Bill Short, mais uma vez, encontra em Francisco de Assis a resposta. No capítulo IX da Regra não Bulada lemos: “A esmola é uma herança e direito que se deve aos pobres, a qual Nosso senhor Jesus Cristo conquistou para nós” (RnB 9,8)
Sublinha Fr. Bill que aquilo que se considera normalmente como doação voluntária ou como esmola para os pobres é para nós, franciscanos, um pagamento justo, uma “dívida”, que temos para com os pobres. “São os herdeiros de Cristo, e, portanto, têm um direito legal a esta herança: o direito àquilo que os outros possuem além das suas necessidades.” O princípio econômico básico da “economia evangélica” é dar a todos, especialmente aos pobres, aquilo que é necessário para viver.
O historiador italiano Giacomo Todeschini, num estudo sobre a influência do movimento franciscano sobre a economia medieval, aponta para o fato de que escritores e pregadores franciscanos, sobretudo no século 14, se mostravam a favor dos “instrumentos do crédito” – desde que os mesmos fossem tenha utilizado este instrumento ao serviço do bem público. Lucros acumulados deveriam ser investidos em favor dos pobres. Por exemplo, como empréstimos a pessoas necessitadas, com juros acessíveis e não usurários.
Prossegue Bill Short que, precisamente hoje, temos de considerar os lucros num contexto social mais amplo. Este tema também foi citado pelo papa Bento XVI na encíclica “Caritas in veritate” na qual se diz, entre outras coisas: “Quando o lucro se transforma em objetivo exclusivo, quando é alcançado por meios indecentes não visando o bem comum, corre o risco de destruir a riqueza e criar a pobreza.”
6. Gratuidade e fraternidade
Estes dois pontos chave da tradição franciscana devem determinar o nosso comportamento como franciscanos, sobretudo perante a crise financeira internacional, sublinha Bill Short. „Todo o bem pertence ao Altíssimo e nos é dado como dom. Portanto, a gratuidade se situa no centro da nossa resposta ao mundo que Deus criou... Nós todos, seres humanos e outras criaturas, recebemos a nossa vida e a nossa existência do Deus Trinitário, que dá tudo gratuitamente... A fraternidade tem suas raízes na nossa identidade como seres criados, o que é expresso de maneira maravilhosa e poética no Cântico do Irmão Sol de Francisco de Assis „.
Download: texto integral em espanhol
http://www.ccfmc.net/wEspanol/ccfmc/bibliothek/teol_franc/Bill_Short.pdf
Suplemento
Na contribuição de impulso proferida por Fr. Bill Short houve dois aspectos notáveis. Primeiro a análise profunda da atual crise econômica e financeira e segundo a capacidade de traduzir e interpretar os textos das fontes franciscanas para o nosso tempo de tal modo que ficou bem clara a grande atualidade dos mesmos. Ficou palpável que a espiritualidade franciscana pode realmente inspirar soluções para os problemas atuais. Isto ficou também demonstrado pelo debate vivo que se seguiu à conferência, bem como nos seguintes debates em grupo, para os quais Fr. Bill sugeriu as seguintes perguntas:
1. Quais os exemplos concretos para a nossa economia franciscana evangélica?
2. Como se diferenciam estas iniciativas dos projetos que visam exclusivamente fins lucrativos?
3. Como estas “iniciativas da economia alternativa” possibilitam a verdadeira “herança e a justiça” para com os pobres?
4. O que podemos fazer para criar iniciativas semelhantes nos níveis local, regional, nacional e internacional?
Já nas primeiras contribuições ficou claro que os atuais mecanismos, que criam ricos e pobres, não são aceitáveis segundo a visão que temos do ser humano. Os pobres têm o direito de participar da abundância dos ricos. Se alguém tiver mais do que necessita, isto pertence ao “bonum commune”; e quem tiver mais, tem que investir no bem comum o que sobra. Além do mais, nunca nos devemos contentar com a tese segundo a qual os pobres devem ser considerados como o produto secundário inevitável do progresso.
Nas debates em grupo, ficou claramente expresso que o sistema econômico atual não é capaz de solucionar o problema da riqueza – pobreza. Portanto, é urgente que sejam encontrados modelos alternativos como por ex. grupos de auto-ajuda que enfrentem, eles próprios este problema; participação em todos os setores para fazer progredir uma economia solidária; microcréditos para os pobres como já estão sendo praticados em muitas partes do Sul; redes nas quais se unam muitas iniciativas para construir uma alternativa com a qual se possa contar. Concluindo pode-se dizer que já há muitas iniciativas que realmente contribuem para resgatar a dignidade dos pobres e que estão muito próximos do ideal franciscano.
Ásia
Filipinas
O CCFMC na rede franciscana
Quanto ao CCFMC, a respectiva coordenadora continental, Irmã Jeanne Luyun, SFIC, informou sobre a reunião da Equipe Diretora Internacional que teve lugar em Frascati, perto de Roma, em fins de Outubro de 2009. Dirigiu um apelo veemente aos ministros das ordens, às irmãs e irmãos das suas congregações a colaborarem ativamente nos programas e nas atividades do CCFMC apoiando o curso num espírito de cooperação interfranciscana.
Também foi abordada a regionalização do CCFMC planejada para Ásia /Oceania. Para poder pôr este plano em prática foram convidados membros de ordens e congregações através dos seus superiores, a fazerem parte da equipe continental do CCFMC para a Ásia e Oceania. Desta maneira, poderiam contribuir para fomentar o carisma franciscano missionário e cooperar numa transformação da sociedade.
Papua ocidental
Novo Coordenador do CCFMC na Papua ocidental ante grandes projetos
As expectativas relacionadas com o coordenador do CCFMC recentemente nomeado são muito grandes: deve promover e animar o Curso básico sobre o carisma missionário franciscano em sete regiões: Jayapura, Abepura, Sentani, Wamena, Timika, Moanemani e Merauke. Presentemente, Fr. Lambert prepara-se para as suas novas tarefas e organiza um encontro com a Família Franciscana em Jayapura, Abepura e Sentani para introduzir o CCFMC. Depositam-se grandes esperanças
Nova-Guiné Ocidental ou Papua Ocidental é a parte ocidental da ilha Nova Guiné, situada perto do equador e faz parte da Indonésia. Administrativamente, esta região forma a província autônoma de Papua, antigamente chamada Irian Oeste ou Irian Jaya em indonésio, da qual foi separada a parte ocidental em 2003 e que se chama Irian Jaya Barat.
América Latina
Chile
Franciscanos em estado de choque depois do sismo
Não há vítimas entre os franciscanos no Chile, mas danos materiais incalculáveis nas suas instalações e nos seus prédios. Assim comunicou o provincial capuchinho de Chile, Fr. José Miguel Jiménez Cohl, OFMCap, imediatamente depois do sismo de 8,3 graus na escala Richter que assolou o Chile em 27 de fevereiro. Pode-se perceber através dos e-mails dele e de outras pessoas do Chile quão grande é a comoção e o espanto das irmãs e dos irmãos ante a morte e a destruição na sua vizinhança imediata.
Na capital Santiago, o sismo provocou, sobretudo, danos materiais. Nas regiões mais afetadas VII e VIII dentro da cidade de Concepción e arredores, ainda não se pode precisar o número de mortos e a extensão da destruição de prédios. Uns franciscanos da capital de Santiago que conseguiram chegar a Concepción por estradas danificadas, informam sobre uma extensão inimaginável de destruição e miséria da população: falta de água, de gêneros alimentícios, eletricidade e de abrigo. Em meados de março começa, além disso, a estação de frio e chuva.
Expressamos o nosso sentido pêsame a todas as vítimas. Rezamos especialmente por elas.
Estragos nas casas e templos dos Franciscanos
Outras fotografias: http://www.ofm.org/ofm/?p=684&lang=es
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Sinais do tempo
O tema da ecologia torna-se cada vez mais premente
Chega-nos uma notícia agradável da América Latina. Impulsionados pela comissão latino-americana de EARWOT (associação ecumênica dos teólogos do terceiro mundo), 13 revistas teológicas do continente planejam publicar uma edição coletiva visando o tema da ecologia. Concretamente está planejado que, no primero semestre de 2010, uma edição completamente dedicada ao tema da ecologia. Participam todas as revistas teológicas desde o México até à Argentina. Isto demonstra que a preocupação sobre a Criação ameaçada se tem tornado um componente importante do pensar e agir da teologia da libertação. Pessoas que no espírito do Cântico do Irmão Sol de Francisco de Assis, estão comprometidas com um trato fraternal de todas as criaturas, só podem sentir alegria com este fato. Também devemos entender esta iniciativa comum como incentivo para utilizar ainda mais cuidadosamente as dádivas da natureza. Pois sentimos cada vez mais que isto se converte num tema nuclear em relação a um futuro melhor.
Nota de: Plattform der Befreiungstheologie, circular 10 – Março de 2010
Ver também: http://bit.ly/a77uOg
30° aniversário do martírio de Dom Oscar Romero
Em El Salvador, uma iniciativa eclesiástica reivindica um dia nacional em memória do Arcebispo D. Oscar Romero. Uma moção correspondente foi apresentada no Parlamento no dia 23 de fevereiro de 2010. É apoiada por representantes de diferentes religiões e organizações sociais. O dia comemorativo deverá ser o dia 24 de Março. Nesse dia, Romero foi assassinado em 1980, durante uma celebração eucarística. O principal representante da iniciativa é o presidente da Fundação D. Romero e vigário-geral da arquidiocese de San Salvador, Ricardo Urioste. Disse que havia milhares de pessoas que apoiavam a iniciativa. Também houve políticos do partido governamental FMNL que sinalizaram o seu apoio.
Nota de: Plattform der Befreiungstheologie, circular 10 –Março de 2010

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