Um outro mundo é possível
Um outro mundo é possível. Este é o credo dos críticos da globalização que se reuniram no Fórum Social Mundial, que teve lugar, pela décima vez,
Quem quiser promover um tal processo precisa de um grande fôlego; precisa de inteligência e de espiritualidade, portanto, de uma visão global de como poderia ser o aspecto dum mundo mais humano, por ser mais justo e mais pacífico. Para nós cristãos é a visão do “Reino de Deus”. Em muitas parábolas e histórias, Jesus apresentou sua visão do Reino de Deus presente entre nós. Não só no outro mundo, mas já aqui e agora, este reino da justiça, da paz e do amor ao próximo deve brotar – com novas relações entre as pessoas. São Paulo amplia esta visão em sua carta aos romanos: “A própria Criação espera com impaciência” este futuro que traz a salvação (Rom. 8,19). Esperança ansiosa de um novo tempo, que cure as feridas abertas pelos temores e misérias atuais, esta é a força motriz necessária nestes tempos de mudança. A tarefa da Igreja consiste em fortalecer e explicar esta força como se expressou o documento de esperança do Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. (GS 1) Um dos princípios fundamentais de uma ordem social vista sob a ótica cristã é a “solidariedade para com os pobres“.
Isto exige mais do que se ocupar com idéias e concepções sublimes. Exige engajamento e uma forma diferente de viver e agir. Deus mesmo elegeu os pobres e pôs-se ao lado deles. Assim testemunham sempre os profetas, assim o testemunha o Evangelho de Jesus. Esta é a “Boa-Nova” para os pobres aos quais é prometido o Reino dos Céus. A consequência disto é: “Fora dos pobres não há salvação”, como interpreta o teólogo da libertação, Jon Sobrino SJ de San Salvador, a economia da salvação. O discurso de Jesus sobre o juízo final não deixa dúvida nenhuma (cf Mt 25,31s).
E para franciscanos e franciscanas isto significa que precisamos revisar seriamente nossa compreensão de pobreza. Durante muito tempo, a pobreza foi entendida como virtude ascética, como dependência da permissão do superior na utilização das coisas. Isto pode ter contribuído para um estilo de vida austero, mas pouco tem a ver com o ideal da pobreza. A nossa pobreza deve ligar-se à sorte amarga dos pobres no mundo: viver em simplicidade para que outros sobrevivam! Entender a pobreza assim, requer solidariedade com os pobres, requer a identificação com sua luta por uma vida melhor e requer um mundo mais justo no qual todos possam viver com dignidade. Estes são os objetivos do “Fórum Social Mundial”. Os seus autores e adeptos devem estar seguros de que nós estamos ao lado deles.
Andréas Müller OFM
Integridade da Criação – um desafio franciscano
A contribuição da teóloga Irmã Marlene Perera, FMM de Sri Lanka, sob o título “Integridade da Criação – Eco-justiça. Um desafio franciscano” faz parte dos discursos de impulso proferidos durante a reunião da Equipe Diretora do CCFMC, que teve lugar em Frascati em fins de Outubro de 2009, para a qual queremos despertar o interesse dos nossos leitores com breve resumo.
O fato de a criação, na sua beleza e diversidade, estar em perigo já não pode ser ignorado e, muito menos negligenciado. Porém, quais são as razões para a destruição cada vez mais rápida do nosso planeta? E qual é a nossa responsabilidade como cristãos e franciscanos face a este desenvolvimento?
Irmã Marlene vê as razões para a destruição na ânsia de dominar a Criação e no fato de o ser humano se considerarem a si mesmas o centro do universo. Isto levou, segundo Irmã Marlene, à exploração desenfreada da natureza em benefício de uma pequena elite. A tecnologia como tal não é negativa: é neutra. Mas o homem utiliza a tecnologia de tal maneira que ameaça toda a vida em perigo, afirma Irmã Marlene. Assim não só destrói a beleza da natureza, mas também a capacidade que a terra possui sustentar a vida. Assim, o ser humano corre o risco de sua vida e sua humanidade. Continua dizendo Irmã Marlene que não só o meio ambiente sofre com a exploração abusiva da Criação; este abuso também leva a aprofundar o abismo entre os países pobres e os países ricos, entre pessoas pobres e pessoas ricas.
O mundo e as pessoas reagem
Diante deste modelo de desenvolvimento alarmante, entidades internacionais e vários países se levantaram com advertências e propostas, mas, até agora, tem conseguido muito pouco. No entanto, as iniciativas das bases, da sociedade civil, das ONG’s e de grupos engajados dão esperança. O Fórum Social Mundial, o Fórum de Teologia Mundial, o Dia Internacional do meio ambiente em 5 de Junho – para mencionar só alguns eventos – despertam interesse e encorajam a agir.
Uma nova visão ambiental se impõe
A opinião muito divulgada da centralidade do ser humano a idéia de que só ele é a imagem de Deus foi desenvolvida e propagada sobretudo por filósofos europeus. A transcendência horizontal e a idéia da superioridade do ser humano em relação à criação foram a consequência; não só na Europa, mas, pela colonização européia, em todo o mundo. “O homem, portanto, é o maior problema da terra, e a maior ameaça para a natureza, a vida humana, a civilização, a diversidade na natureza e a cultura ... Trata-se não somente de uma crise ambiental e ecológica, mas de uma crise cultural, religiosa e profundamente espiritual. A crise questiona fundamentalmente a civilização que nós construímos – não excluindo as religiões –“, afirma Marlene Perera.
Os mais diversos movimentos participam da busca de concepções e idéias alternativas. Todos eles esforçam-se por uma vida em harmonia com a natureza, com os outros seres vivos, conosco mesmos. O movimento inter-religioso, o movimento eco-feminista e o movimento dos povos indígenas mostraram um dinamismo especial neste processo, diz Irmã Marlene.
O esforço das religiões por um melhor entendimento mútuo e pelo diálogo está se intensificando, afirma Irmã Marlene. Embora ainda existam preconceitos, devemo-nos perguntar como as diferentes crenças poderiam se ajudar mutuamente para encontrarem o “lugar adequado para o ser humano na Criação, como protetores e vigilantes responsáveis, como uma das muitas espécies na natureza, com uma responsabilidade sagrada de proteger, desenvolver e alimentar toda a vida na terra, como servo de Deus.” Há tantas coisas que podemos aprender uns dos outros. Continua dizendo Irmã Marlene que precisamos nos perguntar autocriticamente se seríamos capazes de sentarmos à mesa com outras religiões como iguais entre iguais. Só assim serão possíveis novos sonhos e novas visões vivificantes.
O movimento eco-feminista bem conseguiu penetrar e abrir frestas no sistema patriarcal, dualista e hierarquizado, vigente durante tanto tempo. Segundo este sistema de valores, tudo que é orgânico, terreno e corporal – e a assim eram consideradas as mulheres e a natureza – situa-se num patamar inferior, e pode ser explorado à vontade. O Movimento eco-feminista deu, finalmente, uma voz à Mãe Terra, segundo Marlene Perera, que continua dizendo que as mulheres, bem como a natureza são oprimidas, devendo ser libertadas para poderem ser outra vez elas mesmas. Esta luta de libertação deve acontecer nos âmbitos econômico, social e político e, não por último em nível religioso-cultural.
A espiritualidade dos povos indígenas vê a natureza e toda a vida como algo sagrado; é sua própria vida que Deus compartilha com toda a Criação e com todos os seres humanos. Para estes povos, diz Irmã Marlene, a terra não é mercadoria, e sim, lar – a Mãe Terra. Faria bem, sublinha Marlene Perera, se nos abríssemos realmente a estes conceitos, a partir dos quais, estes povos conseguiram levar a sua vida em harmonia com a natureza.
Em busca de uma espiritualidade da terra
Desafio Franciscano
Francisco de Assis é, como continua Marlene Perera, universalmente reconhecido como o homem da natureza. Em cada fase, em cada episódio de sua vida se evidencia o trato respeitoso, cuidadoso, cauteloso da criação. O seu Cântico do Irmão Sol celebra a criação. Sua vida foi uma espécie de união extática com Deus na natureza. Considerou tudo como sagrado, superando os limites normalmente colocados entre o sagrado e profano.
Conclusão
A justiça para com a Criação é condição prévia para a justiça autêntica na sociedade, sublinha Marlene Perera. Recorda as seguintes palavras do jovem indígena norte-americano Marcus Briggs dirigidas aos participantes do Fórum Mundial de Teologia
Download: (Tradução em Espanhol)
http://www.ccfmc.net/wEspanol/ccfmc/bibliothek/teol_mission/Marlene_Perera.shtml?navid=99
Suplemento:
O discurso de impulso proferido por Irmã Marlene demonstrou como é importante chamar a atenção sobre a interpretação do ideal franciscano nos diferentes contextos culturais e sociais. Só assim, podemos agir como família internacional. A este respeito são muito pertinentes as perguntas que foram preparadas por Irmã Marlene para o trabalho em grupo:
1. Qual é a contribuição concreta do curso para a cultura da não-violência, da reconciliação e da preservação da Criação?
2. Qual é a contribuição concreta do curso para a libertação dos seres humanos e das instituições da sua ânsia e do seu desejo do poder?
3. Qual é a contribuição concreta do curso para a solidariedade com os pequenos movimentos básicos que promovem a vida lutando por justiça e paz?
Os resultados das discussões em grupo são consideráveis. Para pôr em prática a visão de Francisco na nossa época, temos que começar com passos muito pequenos. O ponto de partida deve ser sempre a realidade na qual vivemos. A resposta será diferente na África, na Europa ou na Ásia. É sempre decisivo partir da dignidade ser humano. Cada pessoa é a imagem de Deus: o coletor de lixo nas ruas bem como o executivo nas metrópoles do nosso mundo. Porém, têm oportunidades completamente diferentes. A nossa tarefa é chamar a atenção para esta realidade.
No entanto, isto só é possível se reconhecermos e percebermos outra vez a nossa missão profética. Deveríamos aprender de Francisco a chamar atenção sobre a injustiça gritante nas nossas sociedades, mais através da nossa vida do que através de palavras. O CCFMC é um instrumento para exercitarmos esta capacidade. A condição prévia é a existência de comunidades vivas. A Família Franciscana deveria formar uma rede de comunidades proféticas que rezem, sirvam, se ajudem e se estimulem mutuamente. Só então, o mundo há de olhar para nós. Só então, poderemos também ousar solucionar conflitos, reconciliar partes litigantes e ser mensageiros de esperança aos pobres e doentes. Esta é a dimensão política e profética inalienável do nosso carisma. A missão do CCFMC continua sendo promover esta dimensão.
América Latina
Dez anos de Fórum Social Mundial – um olhar francisclariano
O Fórum Social Mundial já atingiu uma certa maturidade. Agora é preciso decidir sobre os instrumentos e a orientação futura deste maior evento regular da sociedade civil. As Irmãs Catequistas Franciscanas do Brasil, que participaram no mais recente Fórum Social Mundial, na cidade brasileira de Porto Alegre, escrevem, entre outras coisas, a este respeito:
Durante os dias 25 a
Esteve presente nos discursos e debates de diversos painéis do Fórum Social Mundial a noção de que estamos vivendo uma crise civilizatória na qual o sistema econômico é um dos pilares que estão por ruir. Essa crise afeta também, as relações culturais, ambientais e sociais.
Concluindo podemos dizer: é urgente apressar os nossos passos e juntarmo-nos como movimentos que se organizam para defender a vida. Tem de ser desenvolvido um modelo econômico cuja centralidade seja a vida e a solidariedade e não o lucro. A política das entidades estatais tem de ser organizada de maneira que favoreça um modelo de sociedade sustentável, um sistema no qual todos os bens comuns sejam para o uso e não para o abuso...”
Pacto das Catacumbas
“Na campanha eleitoral dos EUA se relembrou repetidamente “o sonho de Martin Luther King” querendo atualizá-lo. E por ocasião da convocatória do Vaticano II se recordou, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia
Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto, nos seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na co-responsabilidade da Igreja como Povo de Deus na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.”
De: Pedro Casaldáliga, bispo em. de São Félix do Araguaia, MT, Brasil, Circular 2009
Download:
http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/bibliothek/teolog_mission/Catacumbas.pdf
Sinais do tempo
CLAR: Haiti e as oportunidades para um verdadeiro kairós
A catástrofe sísmica que assolou Haiti em Janeiro de 2010 foi o ponto de partida de uma carta da presidência da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos CLAR, dirigida aos seus membros e na qual trata de Haiti – mas não somente. Segue um breve resumo desta carta com o título Haiti, até a um verdadeiro kairós
Num primeiro momento, a carta resume a extensão dos danos e da destruição causados pelo sismo, as primeiras medidas de assistência e a perspectiva a longo prazo para a reconstrução. Continua com uma análise sobre as causas e as razões que converteram Haiti num país que foi levado aos limites da sua existência devido ao sismo.
Diante da catástrofe, o Secretário-Geral da ONU e o Papa Bento XVI pediram “Uma “solução duradoura” e uma “resposta solidária e institucional”. Assim, lograremos que os acontecimentos de Haiti se convertam numa graça de Deus, num kairós. Porém, como se há de conseguir este resultado, num país com uma cultura rica, uma economia pobre e uma política frágil?
Este resultado pode ser conseguido:
· com um sentido de pertença ao mundo em que vivemos e da fé que professamos; pois a sustentabilidade da resposta depende da vinculação das instituições às quais estamos ligados.
· mediante relações recíprocas: as relações entre diferentes disciplinas e a responsabilidade recíproca entre os governos que são responsáveis pela coleta e administração honesta dos recursos econômicos de ajuda e a Igreja que precisa se preocupar pela recuperação da estrutura social. Nisso tudo, as ordens têm um papel essencial. Precisam revitalizar sua presença histórica de maneira nova.
Alem disso, sublinha a carta, o engajamento por Haiti deve abrir novos horizontes em nível estatal bem como em nível eclesiástico. Os pedidos de socorro atuais, no entanto, não devem ser negligenciados. É preciso mostrar o “zelo de quem tem que apagar um incêndio”.
Leonardo Boff: Haiti como prova para a humanidade
Hospitalidade e solidariedade são as virtudes das quais a humanidade precisa se lembrar se não quer sucumbir numa catástrofe semelhante à do Haiti. Isto escreve Leonardo Boff numa contribuição ao tema de quais as lições que a humanidade deve e aprender desta tragédia.
“... Num futuro não muito distante, seremos confrontados com vários Haitis com milhões e milhões de refugiados devido às alterações climáticas... Haiti pode ser um sinal do anjo exterminador que passa, sinistro, ceifando vidas humanas ...
A hospitalidade, já o viu o filósofo Kant, é um direito e um dever de todos, pois todos somos habitantes, melhor, filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade. Estarão as nações dispostas a atender a este direito básico àquelas multidões que já não poderão viver em suas regiões superaquecidas, sem água e sem colheitas?
A segunda virtude é a solidariedade. Ela é inerente à essência social do ser humano. Ela supõe uma consciência coletiva e o sentimento de pertença entre todos.
Chegamos a um ponto da história no qual todos nos descobrimos entrelaçados na única sociedade global. Sem a solidariedade de todos com todos e também com a Mãe Terra não haverá futuro para ninguém.“ Dizia Che Gevara: "A solidariedade é a ternura dos povos". Essa ternura, temos que exercê-la para com nossos irmãos e irmãs do Haiti que estão agonizando.

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