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CCFMC Boletín Junho 2009

Os Direitos da Mãe Terra


Em Bonn/Alemanha começou no dia 1° de Junho uma conferência de 12 dias sobre a proteção do clima global. Aproximadamente 3000 delegados provenientes de 190 países estão preparando a Convenção da ONU sobre o Clima, a qual deverá ser aprovada em Copenhague, em Dezembro do ano em curso. Os participantes são delegações governamentais, representantes da economia, especialistas em clima e em proteção do meio ambiente. A conferência não é um evento local, mas sim uma convocação à mudança radical de atitudes destinada a preservar o planeta para as futuras gerações.

O diretor do Instituto de Potsdam de Pesquisa de sequências climáticas (PIK), Hans Joachim Schellnhuber, qualifica a solução da crise do clima como um “desafio nunca antes experimentado pela civilização”. Se não se conseguir a diminuição em cerca de 20% das emissões globais dos gases com efeito estufa até 2020, não será possível escapar a uma catástrofe climática. O que isso significa é bastante bem descrito e fundamentado cientificamente: uma subida significante do nível do mar, aumento das secas, frequentes alterações climáticas, falta de água e de gêneros alimentícios etc. Se hoje, 20% da população mundial vive em regiões litorais, muitos só vão sobreviver através duma migração interna gigantesca. Mas, migrar para onde? Muitos peritos e ambientalistas temem que a política e a economia não tenham coragem suficiente para mudar a sua atitude. A não ser que a pressão por parte da população force os responsáveis a tomar as medidas necessárias e eficazes. Para tal, é necessário uma mudança essencial da consciência de todos.

A afirmação mais impactante do discurso do presidente da Bolívia, Evo Morales Ayma, no dia 22 de Abril na Assembléia Geral da ONU, ao se proclamar este dia como o Dia Internacional da Mãe Terra, talvez tenha sido a seguinte: “Se o século XX é reconhecido como o século dos direitos humanos, individuais, sociais, econômicos, políticos e culturais, o século XXI será reconhecido como o século dos direitos da Mãe Terra, dos animais, das plantas, de todas as criaturas vivas de todos os seres, cujos direitos também devem ser respeitados e protegidos.” Evo Morales fala como membro dos povos indígenas, que têm guardado este respeito à Mãe Terra e a todos os seres vivos ao longo dos séculos, nos quais os brancos dos continentes do Norte se entenderam e agiram como senhores da Criação. Esta visão dos direitos da Mãe Terra está muito longe da concepção capitalista segundo a qual a Terra é vista como um reservatório de recursos que podemos explorar ao nosso bel prazer, e da qual ficamos reféns durante séculos. Faltou-nos a percepção de que a Terra é verdadeiramente nossa Mãe que deve ser respeitada, venerada e amada. Os povos indígenas mantêm viva a conexão com a natureza e com a Mãe Terra. Nós temos que aprender de novo que, só devemos trabalhar em consonância com os seus ritmos, e produzir com o maior respeito de todos os biotopos. Isto começa com a nossa atitude em relação ao consumo e termina com a redescoberta duma espiritualidade da Criação na qual reconheçamos a Mãe Terra realmente como dádiva de Deus, que devemos proteger e defender.

Como pessoas franciscanas poderíamos ter conservado e ensinado esta visão da Mãe Terra como a dádiva de um Deus amante, durante 800 anos de espiritualidade franciscana, e isso, num mundo, que considerava a natureza só como valor econômico que devia ser explorado em favor e proveito do gênero humano. Poderíamos ter conservado e ensinado a unidade de Deus, seres humanos e natureza como a nossa herança mais importante, se tivéssemos encarnado e vivido a mística do Cântico do Irmão Sol de São Francisco. Deveríamos confessar que nós também fomos ofuscados às vezes pelo esplendor da ciência e da tecnologia e não resistimos de maneira suficiente. “Nossa Irmã, a Mãe Terra, que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.” Todo o Cântico do Irmão Sol está cheio do grato conhecimento de que tudo isto não é natural: todo o mundo com os seus pavores e a sua beleza no esplendor de Deus, a presença de Deus em todas as coisas, nos quatro elementos – sobretudo, no entanto, nos seres humanos, que estão na pegada de Jesus. Nada na mística franciscana dos olhos abertos é ateu. Tudo neste mundo é pleno de Deus, abençoado e protegido. Esta é a nossa missão. Vamos redescobri-la!

Andreas Müller OFM  


 

Africa

Rwanda

Em Março de 2009, dois os eventos franciscanos tiveram lugar em Rwanda. Jean Francis Isia Amundala OFS informa, a seguir, sobre os mesmos:

“Nos dias 21 a 24 de Março de 2009, teve lugar na paróquia franciscana de Kivumu, a 40 quilômetros da capital rwandesa Kigali, o primeiro encontro da Família Franciscana de Rwanda. 20 delegados de todos os ramos da Família Franciscana de todas as partes do país aceitaram o convite. Fr. Joseph Bishyanuka OFM e Fr. Mathias Kule OFM lideraram este encontro.

Durante estes quatro dias, os participantes trocaram impressões sobre os seguintes temas: introdução e apresentação geral do CCFMC; instalação de uma entidade nacional de coordenação para o curso, e elaboração de um programa. Num diálogo aberto e fraternal, os participantes apresentaram suas idéias, visões e propostas, falando sobre as dificuldades atuais. Neste contexto, as preocupações acerca das possibilidades da formação e a aquisição das lições estavam no foco da discussão. Finalizando o encontro, foi eleito um comitê nacional provisório, composto de 8 membros, com a coordenação de Fr. Joseph Bishyanuka. Constatando-se os irmãos e as irmãs não se conheciam pessoalmente antes do encontro, decidiu-se organizar encontros a nível das diferentes dioceses, para fomentar a cooperação e o conhecimento mútuo das pessoas.

Houve uma série de estímulos para promover as possibilidades de formação:

  • A instalação de um lugar de encontro em cada diocese;
  • A cooperação dos frades menores OFM;
  • A colaboração mais intensa dos membros da OFS;
  • A tradução das lições para uma forma simples do idioma local;
  • Incluir a JUFRA e as Clarissas.

O segundo evento foi a assembléia da Família Franciscana da Região dos Grandes Lagos (FFRGL) motivada pela visita de Fr. Andreas Müller, que se realizou de 25 a 30 de Março de 2009. Sobre este segundo importante evento franciscano, um outro relatório menciona o seguinte:

Após a saudação feita pelo guardião de Kivumu, Fr. Mathias Kule OFM, e as informações sobre a situação atual nos diferentes países, o coordenador resumiu o desenvolvimento da FFRGL desde os seus inícios bem como as fases difíceis no caminho trilhado até agora. A visita de Fr. Andreas, disse, era uma importante ajuda de orientação. Fr. Andreas, por sua vez, sublinhou que estava disposto a acompanhar a FFRGL no seu longo caminho. Lembrou que S. Francisco tinha mandado os irmãos ao mundo para ensinarem “Pax et Bonum”, quer dizer, paz e todo o bem. Isto devia ser também o leitmotiv para os participantes do encontro. No decurso do encontro, estimulou e enriqueceu os debates com experiências feitas durante os seus encontros internacionais.

Os relatórios das diferentes comissões da FFRGL foram outro ponto marcante na agenda deste encontro:

Fr. Mathias Kule, encarregado da Comissão de Justiça e Paz, explicou um programa previsto para 3 anos, que leva em consideração as condições específicas reinantes nos diferentes países. Prevê-se a elaboração de um plano de ação, a formação de especialistas e conversas com encarregados locais para preparar o terreno. Continuou dizendo que era importante a cooperação ativa de todos os membros da Família Franciscana. Além disso, era importante incluir a juventude nas atividades.

Fr. Joseph Bishyanuka, encarregado da Comissão de Formação e Estudos, sublinhou quão importante era, especialmente na Região dos Grandes Lagos devastada por conflitos, cultivar uma cultura de paz. O programa apresentado por ele prevê uma colaboração estreita entre a educação humanista, cristã e franciscana. A sua comissão já trabalha com antigos presidiários, com pessoas que fugiram do genocídio, bem como com pessoas que se dedicam a tarefas de interesse público. Os seus estímulos: todos os países devem dar vida ao comitê da Família Franciscana na sua região; todas as comissões devem estar presentes também a nível local.

A Comissão de Comunicação chefiada pelo Senhor Pierre Gahunga Kemayire sublinhou a necessidade duma rede de comunicação viável para atingir um grande número de pessoas. Pensa-se na instalação de uma página Web, a edição regular de uma folha de informação e a emissão de programas franciscanos de rádio e televisão.

A Comissão de Relações Interreligiosas e Evangelização, representada por Fr. Jean Baptiste Tabaro, entende a sua tarefa no diálogo aprofundado com as diferentes comunidades religiosas e grupos sociais para um melhor conhecimento mútuo, respeito mútuo, a compreensão mútua, o respeito da dignidade do outro e a reconciliação entre os partidos beligerantes.

Leopold Fiston Gacuririzi, chefe da Comissão de Programas, Projetos e Financiamento, disse que a tarefa principal da FFRGL é “contribuir para a consolidação da paz na Região dos Grandes Lagos”. Os temas mais prementes são: Em Burundi: a educação para a paz e a reconciliação. Em Rwanda: construção de uma casa da formação para a Região dos Grandes Lagos. Educação para que os povos possam viver em paz. República Democrática do Congo: Educação para a paz, bem como a construção de uma sala de reuniões em Nyantende. Uganda: Programas de reciclagem para fortalecer a fraternidade franciscana.

Francis Isia, responsável pelas finanças, acha conveniente a fundação de empreendimentos próprios que criem lugares de trabalho contribuindo assim para um financiamento próprio.

 

Uganda

A Juventude de Uganda a caminho rumo a Francisco

Fr. Hermann Borg OFM informa sobre os êxitos satisfatórios conseguidos por parte da coordenadora do CCFMC de Uganda, Irmã Margaret Awor Lsosf, na formação de jovens franciscanos:

 
Durante os anos passados, Irmã Margaret Awor tem dedicado o seu trabalho aos jovens para formá-los como pessoas maduras e responsáveis. No dia 18 de Abril do ano em curso, um grande número de pessoas pode ver e vivenciar os frutos dos seus esforços.

Tororo, uma cidade no oeste de Uganda com 300 000 habitantes, situada a apenas 20 quilômetros da fronteira com o Quênia, não só tem uma próspera indústria de cimento que oferece emprego à população; também desenvolveu grandemente a espiritualidade e a renovação.

No dia 18 de Abril, foram introduzidos, durante uma missa solene na catedral de Tororo, 40 jovens no seu novo ministério como dirigentes dos primeiros grupos de jovens franciscanos nas 40 paróquias desta arquidiocese. No altar-mor decorado, tomaram lugar dois bispos e uma dúzia de sacerdotes bem como um grupo de aproximadamente 15 freiras franciscanas. A catedral estava literalmente cheia, principalmente de jovens. Presidiu a celebração o bispo auxiliar Charles. Uma das leituras foi feita por um rapaz cego que leu em voz alta e convincente o texto escrito em Braille. Fr. Hermann, do Quênia proferiu a homilia sublinhando nela o significado da vocação franciscana.

O caminho de uma espiritualidade e renovação franciscanas que experimentaram agora um estímulo novo, não tem sido sempre fácil nos últimos anos; pois passou também por tempos de guerra e repressão. Os esforços agora coroados de um êxito tão maravilhoso, por interessar a juventude pela espiritualidade franciscana levando--a à mesma, não só hão de fomentar uma renovação do espírito de S. Francisco na juventude ugandesa, mas também terão repercussões positivas sobre muitos jovens fiéis e sobre uma Igreja viva. Assim, alguns sacerdotes manifestaram o seu interesse em contatar os franciscanos seculares.

Este ano de 2009, no qual se celebram os 800 anos do carisma franciscano, pode dar apoio especialmente à nova geração na sua procura dum sentido de vida.

 

América Latina

México

Desenvolvimento Dinâmico do CCFMC desde 2004

Irmã Maria Gabriela Alarcón Contreras OFS informa sobre os desenvolvimentos encorajadores e novas iniciativas em relação ao estudo do CCFMC e o seu uso prático nos últimos quatro anos:

Abriram-se novos caminhos e foram alcançadas metas valiosas. Assim se pode resumir, em palavras concisas, a atividade do CCFMC no México no período de tempo desde o último encontro de avaliação do CCFMC, que se realizou em Cochabamba/Bolívia no ano de 2004. Isto manifesta-se, entre outras coisas, nos seguintes pontos:

  • No México trabalham agora novos animadores e promotores do CCFMC.
  • É cada vez mais importante a presença do CCFMC nos meios de comunicação social. Graças aos esforços de Fr.Luis Patiño e à ajuda proporcionada por Fr. Manuel Figueroa OFM, existem agora espaços de publicidade relativa ao curso no canal de televisão Mariavisión (SKY e Cablevisión), bem como na revista Ideales Franciscanos. Deste modo, o curso é conhecido por um público crescente.
  • Desde há um ano, o CCFMC é parte integrante do programa de formação da Jufra na província do Santo Evangelho. Desta maneira, os jovens têm acesso ao aspecto franciscano da missão. Estamos convencidos de que, quanto mais cedo conhecerem o carisma missionário, tanto mais cedo os irmãos hão de introduzi-lo nas suas próprias vidas.
  • O curso é dado em diversos espaços: nas instalações do “Instituto Franciscano de Espiritualidad en México”, em cada verão dos últimos 3 anos; o número de participantes foi de 39 no verão passado. Além disso, como instituição migrante, visitando-se conventos da OFS/Jufra bem como mosteiros das clarissas. A duração é variável dependendo da dinâmica e da atividade dos grupos. O curso, melhor dito, diversas lições, são introduzidas também nos programas das Casas de Retiro.
  • Graças à intervenção de Fr. Gerardo Moore OFM, diretor do Centro Franciscano de Guatemala, foram fortalecidos os laços com os animadores do CCFMC na América Central possibilitando uma vivência comum do Carisma Missionário Franciscano. Em Setembro de 2008, fez um convite que foi aceito por 50 irmãos e irmãs de diferentes ramos da Família Franciscana.
  • Com o conselho e a ajuda proporcionados por Fr. Samuel López Padilla – mas, sobretudo motivados pelos novos desafios da Missão Franciscana e iluminados por “Aparecida” – conseguimos introduzir o curso para o “Diploma em Pastoral Urbana”. Este diploma pode ser obtido na Universidade Ibero-americana dos Jesuítas. Podem destacar-se, sobretudo, dois resultados positivos deste curso: 1°) foi proposto editar uma nova lição do CCFMC com o título “Novos Desafios para a Missão Franciscana: a Pastoral Urbana” submetendo esta lição ao vosso critério. 2°) elaboramos e já adotamos novos métodos para introduzir os mesmos no trabalho missionário daqueles irmãos e daquelas irmãs que ensinem o CCFMC e estejam ligados estreitamente com o trabalhos desenvolvidos pela Pastoral urbana dos irmãos de San Diego. Os irmãos de San Diego vivem em pobreza extrema e trabalham sobretudo nos bairros pobres situados nos arrabaldes das cidades, com meninos de rua, tóxico-dependentes e mulheres prostituídas.
  • Na assistência dada aos doentes, tencionamos pôr em prática aquilo que foi refletido e falado nos cursos do CCFMC. Fazemo-lo em conjunto com a fraternidade “El Cristo” em Coyoacán. Os irmãos e as irmãs que se engajam neste trabalho recebem uma introdução especial no tema de tanatologia.

O nosso caminho durante os últimos quatro anos foi difícil. Muitas portas às quais batemos ficaram fechadas. Noutros casos, foram fechadas as portas que estavam já abertas e inclusive, fomos expulsos. Mesmo assim, esforçamo-nos todos os dias por conseguirmos a “plenitude da alegria”.

Os meios dos quais dispomos são o amor ao carisma francisclareano e as poupanças daqueles que trabalham como animadores do CCFMC.

 

Argentina

“Através do CCFMC a uma verdadeira contemplação”

A professora reformada Alicia Teresa Ciardelli, oriunda de Rosário, conheceu, no fim da sua vida profissional, o curso sobre o Carisma Missionário Franciscano e recebeu dele uma grande força para a sua vida e sua espiritualidade. Diz o seguinte:

Após 35 anos de professora na Escola Secundária “Nuestra Señora de la Asunción” em Rosário, estou aposentada desde os fins de Maio de 2008. A escola é uma instituição das Terciárias do Amor, que se dedicam à educação de crianças e jovens. O Instituto foi fundado em 1880 por uma freira franciscana simples, Irmã Mercedes Guerra, que reconheceu quão importante é ensinar e educar crianças de famílias pobres, mas também órfãos e crianças abandonadas pelos seus pais. Fiel ao carisma da nossa fundadora, orientei o meu trabalho de educação como professora e, mais tarde, como diretora adjunta, segundo os princípios básicos de fé e cultura. Isto significa perceber e respeitar o indivíduo como pessoa e também como filho de Deus. Como professora, eduquei os meus alunos “em liberdade e para a liberdade”. No meu trabalho, sempre tive consciência de que todos precisamos de moderação e respeito e de sentir-nos ouvidos, respeitados e amados.

Sobre os seus contatos com o CCFMC, Alicia Teresa Ciardelli escreve o seguinte: “... Em 2006, decidi fazer um curso abreviado por correspondência sobre o Carisma Missionário Franciscano, no Centro Martín Cruz.

 

Este curso ajudou-me a renovar e atualizar minha tarefa e missão como educadora franciscana. Descobri o significado verdadeiro da palavra contemplação, para Francisco e Clara. Esta dimensão contemplativa deu-me a possibilidade de abrir ainda mais o meu coração para o amor a Deus, aos meus irmãos e minhas irmãs. Esforcei-me por exercitar a contemplação em todos os âmbitos: na família, no trabalho, nas relações com meus superiores, com meus colegas, alunos e pais dos meus alunos, mas também, nos tempos livres, anunciando a Boa-Nova e expressando a relação amorosa com Deus. Esforcei-me por reconhecer Deus como fonte de todas as coisas reais, também daquelas coisas que nos molestam ou doem às vezes.

Com este curso, a missão, a contemplação, a oração e o testemunho chegaram a ter uma nova dimensão para mim; o que também teve repercussões sobre o amor para com os meus irmãos, sobre a solução de conflitos próprios ou com os outros; sobre a capacidade de vencer sofrimentos e desilusões com a fé e a esperança.

Devo a este curso, também, o ter conhecido as coordenadoras Vanessa e Mabel com as quais estou ligada numa amizade, que me ajudou, por sua vez, a crescer na espiritualidade franciscana...”

Hoje, passado quase um ano depois de se ter aposentado, Alicia Ciardelli continua dizendo na sua carta, que não podia pertencer mais a esta comunidade franciscana embora tivesse gostado de pôr à disposição as suas experiências aconselhando e acompanhando o pessoal docente, mas, sobretudo, os jovens professores.

“... Deixei de trabalhar como professora, mas vivo a minha espiritualidade franciscana com uma distinção especial. No ano passado, fiz um curso de reciclagem para assistentes de família do Instituto Superior Don Bosco em Rosário e comecei uma atividade voluntária no serviço de orientação familiar da Cáritas diocesana da arquidiocese de Rosário. Nesta atividade tento, na medida do possível, ensinar às famílias necessitadas o caminho até Deus e aos seus irmãos e suas irmãs. Trabalho num grupo de seis pessoas, sinto-me bem e estou satisfeita. O Senhor acendeu uma luz no meu caminho.”

 


De pé descalço nas pegadas de Jesus -

L’expérience du Christ conduit François dans sa suite

Br. Niklaus Kuster OFMCap


 

3. “O Altíssimo conduziu-me entre os mais humildes”

Experiências-chave de uma longa procura (2ª parte)

Na sua procura por um sentido na vida, o comerciante tinha rezado até à data, a um Deus nas alturas. Encontros com as pessoas mais humildes de Assis fazem com que ele descubra que o Altíssimo atua de maneira surpreendente: muito em baixo. “Deus mesmo levou-me para o meio dos leprosos” (Test). O abraço de um leproso abre o coração da pessoa que procura para o encontro místico em São Damião. Deus aparece-lhe aí – como amigo dos mais humildes – inesperadamente ao mesmo nível. Giotto pintou magistralmente este encontro surpreendente ao mesmo nível: o ricamente vestido vê-se perante o Cristo nu; o bem situado (com 8 casas em Assis) perante Deus que está suspenso , sob à chuva – sente-se sufocado e ajoelha-se.

No conflito seguinte, com o próprio pai, a cruz de São Damião ensina Francisco a considerar o conflito mais grave de Jesus com os homens. Ameaçado pelo pai, Francisco vive durante semanas perto de São Damião, onde, provavelmente, o pároco aí residente, trata dele e, possivelmente o acompanha por primeiro. Francisco encontra na cruz a mão do Pai nos Céus, que leva o Seu Filho – o “Filho do Homem” - à Sua Luz através de recusa, ódio e sofrimento. Francisco vai considerar o Pai de Jesus como o seu próprio pai, algumas semanas mais tarde: o único Pai neste mundo e depois ele. “A partir de agora, já não digo “pai Pietro”, mas sim “Pai Nosso que estais nos Céus” (Leg3C 20). (...)

Experiências limites decisivas feitas no inverno de 1205/06, trilham, dentro de poucos e agitados meses, um caminho cheio de descobrimentos. O “Altíssimo” leva aos mais humildes, responde no Filho descalço na terra e pode ser conhecido como Pai por cada ser humano. O descobrimento do homem Jesus na terra faz com que o Pantocrátor românico se torne num “Deus ao nosso nível” – um Deus que se apresenta ao jovem comerciante fora da cidade e das suas igrejas, à margem da sociedade, entre os mais pobres, em cavernas sossegadas e na ruína de uma igreja.

A experiência de um Pai de todos os homens e do Único Filho que se faz irmão dos mais humildes, leva Francisco a uma imagem do mundo fraternal e radical. Mostra-se mais revolucionário do que a República de Assis e oposto ao pensamento eclesiástico hierárquico. (...)

Como Francisco experimentou aos 16 anos, e na revolução urbana em que a ordem comunal rompe com os modelos patriarcais na sociedade, e desenvolve idéias democráticas, a sua imagem do homem e do mundo radicaliza-se em 1206, a partir de uma vivência comovente de fé. Deus mesmo escolhe a carreira descendente, o Altíssimo iguala-se aos mais pequenos. (...)

O revolucionário desta espiritualidade em relação à sociedade e à Igreja mostra-se nas suas conseqüências, em comparação com o modelo patriarcal de Bento, que orienta a Igreja hierárquica até hoje. Talvez, Francisco chegue a conhecer o famoso prólogo à Regra de Bento já na primavera de 1206, imediatamente depois de ter sido deserdado, estando ao serviço do beneditinos de Vallingegno, o mais tardar, no entanto, sendo frade migrante, que desfruta bastantes vezes da hospitalidade dos frades. Esboça, nos seus últimos anos, numa carta dirigida aos próprios irmãos, um modelo notável de contraste:

Regra de S. Bento:

Escuta, meu filho, as doutrinas do mestre e incline o ouvido do teu coração. Aceita de boa vontade a admoestação do Pai misericordioso e cumpre com ela autuando...

 Francisco à sua Ordem:

Ouvi, Filhos de Deus e meus irmãos, e escutai as minhas palavras com os vossos ouvidos. Inclinai o ouvido do vosso coração e cumpri a voz do Filho de Deus. Preservai os Seus mandamentos em todo o vosso coração e cumpri os Seus conselhos com espírito pleno.

Enquanto para Bento de Núrsia, o convento é uma escola de amor e de perfeição “sob prior e regra”, o Francisco caminhante há de procurar a comunhão da fé no seguimento do Filho de Deus fraternal.


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