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CCFMC Boletín Outubro de 2008

Ser pobre para se tornar irmão e irmã


Pobreza radical como Francisco a entendeu e viveu só é possível quando for segura numa rede de relações humanas fidedignas. Por outras palavras: sem uma irmandade solidária onde um cuida do outro, a pobreza radical desliza para a miséria e para o empaupera-mento. Torna-se inumana. Francisco, portanto, só podia atrever-se a andar pelo caminho diferente da pobreza radical porque “o Senhor lhe deu irmãos”.

Francisco começou esse caminho diferente quando a burguesia, com o início da economia monetária começou com o grande projeto capitalista: um projeto que, desde a óptica das vítimas, até hoje trouxe tanta injustiça ao mundo. Com a decisão de Francisco em prol dos pobres e do pobre Cristo é questionado a burguesia satisfeita consigo própria e é mostrado uma alternativa. Francisco sente instintivamente que a nova sociedade, que surge e que se baseia no princípio de possuir e de querer posses, produz, no outro lado, pessoas que perdem. A acumulação de bens tem sempre como conseqüência a pobreza de outros. A sua renúncia à acumulação de bens de qualquer espécie encontra-se ao serviço da opção de identificar-se com o pobre Cristo e com os que são materialmente pobres.

Mas, apesar da sua posição decidida, a pobreza nunca é para Francisco um valor absoluto. Torna-se relativa quando uma necessidade de vida (necessaria vitae) obriga a tal. Ele entende a pobreza como fraternidade vivida com os pobres. Quer ser radicalmente pobre para poder ser totalmente irmão. Pois Francisco acredita que o encontro com os homens e com Deus é impedido pela ânsia de ter posses ou pelos interesses que trazem discórdia para entre os homens. Posses convertem-se em substituição de relações. O projeto franciscano quer, no entanto, que os homens se possam encontrar ao mesmo nivel tratando-se como irmãos e irmãs. A pobreza consiste, pois, no esforço de relativar cada forma de aquisição para que os homens se possam encontrar verdadeiramente.

Com esta visão de fraternidade, Francisco trouxe uma idéia realmente revolucionária para a ordem da igreja e da sociedade da sua época. Não há senhores e servos e nenhumas diferenças entre as classes. “Sim, muito mais, todos devem, pelo amor de Deus,  servir e obedecer uns aos outros voluntariamente.” Isto significa concretamente: ouvir as necessidades do outro, a vida da comunidade, as palavras de Deus aqui e agora. Trata-se também aqui da pegada de Jesus que Francisco segue: não continuar com os jogos do poder entre adultos, não continuar com a luta pelos melhores lugares, não continuar com o medo de ficar atrás. Pois Deus está presente, e cada pessoa é da Sua imagem e, por tanto, tem uma dignidade e individualidade dada por Deus não podendo ser representada por outros. “Todos os irmãos devem lutar por seguir a humildade e a pobreza do nosso Senhor Jesus Cristo.” (RegNB 9,1)

Na convivência duma sociedade são, naturalmente, necessárias também ordens e combinações, mas as mesmas devem ser comunicativas e o mais simples possíveis. Isto é, não “superiores”, mas sim “ministros” (servos), nenhuma atitude de domínio, nenhumas posses, nenhuma tutela – esta é a visão de Francisco de Assis. Francisco teve de aprender quão difícil foi a realização desta idéia: Ele estava ainda vivo quando as lutas pelo poder dentro da própria ordem começaram, e houve cada vez mais formas de direção e modos de atuar também nesta comunidade, os quais pouco se diferenciavam das restantes estruturas do poder. E assim a sua visão continua sendo um sinal de esperança e uma tarefa especialmente para o nosso tempo.

É que a visão franciscana duma vida fraternal no nosso mundo é tão fascinante porque nós consideramo-la como pouco realista, mas estamos, mesmo assim, ansiosos da mesma? O bobo divino de Assis sentiu claramente que uma vida amante de bens destrói a solidariedade e põe em perigo o humanismo e a união entre os homens. Por isso não quis ter posses nenhumas, por isso quis ver tudo partilhado e distribuído fraternalmente, por isso criticou e suspeitou dos poderosos no estado e na Igreja. Em tempos de redistribuição e indiferença sociais, esta visão franciscana de Deus e dos homens é mais atual do que nunca.

Andreas Müller OFM  

 


Mensagem Interfranciscana – 9ª parte

As irmãs e os irmãos provenientes dos continentes do sul esclarecerem, durante o congresso de Mattli, que a Igreja é, sobre tudo, viva naquelas regiões onde as pessoas sentem uma união verdadeira. Isto acontece de maneira exemplar nas comunidades eclesiais de base, nas quais as pessoas se conhecem compartilhando as suas preocupações e os seus desejos e nas quais o espírito de Deus ativa os carismas necessários  para uma “communio” viva.

9. Superando o clericalismo por meio da fraternidade

Observamos oportunamente que nos lugares onde as atividades e iniciativas da comunidade cristã se centralizam no sacerdote ou no seu substituto, o povo de Deus não amadurece em responsabilidade com relação à sua vida e ação cristã. Existem também comunidades vivas que não têm sacerdote, nelas tornou-se possível o reaparecimento de muitos ministérios e carismas e o despertar da fraternidade. Há muitas Igrejas que se têm preocupado pelo desenvolvimento deste novo sentido de fraternidade entre o povo.

Recordamos aqui que os companheiros de São Francisco experimentaram-no como verdadeiro Irmão (il Fratello). Ele não estabeleceu sua comunidade sobre uma base hierárquica. Tampouco deviam caber nela o poder, a dominação e os privilégios. Seus irmãos deviam respeitar-se mutuamente e servir um ao outro. Francisco queria que os irmãos permanecessem no nível da gente simples e não buscassem posições elevadas.

Nós temos uma tarefa especial a cumprir dentro da Igreja, a saber: construir uma comunidade viva de irmãos e irmãs, juntos abrir caminhos a fim de possibilitar que a bondade de Deus se torne realidade em todos os homens. Para tanto, queremos sair ao encontro do povo, amá-lo, vivendo não só para ele mas também com ele. Se quisermos viver as exigências desta vocação, será necessário distinguir com clareza a formação clerical e a preparação para uma vida franciscana em fraternidade. Esta última deve ter uma clara prioridade tanto na formação inicial como na permanente. 

Aparecida 2007 – Superar o clericalismo através da fraternidade

382. “O prazo se cumpriu. O Reino de Deus está chegando. Convertam-se e creiam no Evangelho” (Mc 1,15). A voz do Senhor continua a nos chamar como discípulos missionários e nos desafia a orientar toda a nossa vida a partir da realidade transformadora do Reino de Deus que se faz presente em Jesus. Acolhes-mos com muita alegria essa boa notícia. Deus amor é Pai de todos os homens e mulheres de todos os povos e raças. Jesus Cristo é o Reino de Deus que procura demonstrar toda a sua força transformadora em nossa Igreja e em nossas sociedades. Nele, Deus nos escolheu para que sejamos seus filhos com a mesma origem e destino, com a mesma dignidade, com os mesmos direitos e deveres vividos no mandamento supremo do amor. O Espírito colocou esse germe do Reino em nosso Batismo e o faz crescer pela graça da conversão permanente graças à Palavra de Deus e aos sacramentos.

184. A condição do discípulo brota de Jesus Cristo como de sua fonte, pela fé e pelo batismo, e cresce na Igreja, comunidade onde todos os seus membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e carismas. Desse modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica de viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus.

226 b. Nossos fiéis procuram comunidades cristãs, onde sejam acolhidos fraternalmente e se sintam valorizados, visíveis e eclesialmente incluídos. É necessário que nossos fiéis se sintam realmente membros de uma comunidade eclesial e co-responsáveis em seu desenvolvimento. Isso permitirá maior compromisso e entrega em e pela Igreja.

178. Na experiência eclesial de algumas Igrejas da América Latina e do Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros. Elas abraçam a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47). Medellín reconheceu nelas uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de fé e evangelização. Puebla constatou que as pequenas comunidades, sobretudo as comunidades eclesiais de base, permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos; no entanto, também constatou “que não têm faltado membros de comunidade ou comunidades inteiras que, atraídas por instituições puramente leigas ou radicalizadas ideologicamente, foram perdendo o sentido eclesial”.

179. As comunidades eclesiais de base, no seguimento missionário de Jesus, têm a Palavra de Deus como fonte de sua espiritualidade e a orientação de seus pastores como guia que assegura a comunhão eclesial. Demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados, e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente de variados serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja. Mantendo-se em comunhão com seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em sinal de vitalidade na Igreja particular. Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades. Em seu esforço de corresponder aos desafios dos tempos atuais, as comunidades eclesiais de base terão o cuidado de não alterar o tesouro precioso da Tradição e do Magistério da Igreja.

 

África

Quênia

Jubileu

Sr. Maria Aoko JMJF, no 1° de Setembro celebrou, juntamente com outras 13 irmãs,  as suas bodas de ouro da sua entrada na ordem. Foi, como sucessora de Sr. M. Lingomba Moika FFM da RD do Congo, a segunda coordenadora continental da família do CCFMC na África. As sua comunidade foi fundada, há cerca de 70 anos, pelos missionários Mill Hill,  e conta hoje com 400 membros, aproximadamente, e tem os seu generalato em Assumbi, perto do lago Victoria.

Sr. Maria encarregou-se da tarefa do CCFMC depois de ter terminado o seu serviço como superiora geral da sua comunidade. Com o seu entusiasmo, a sua autoridade natural e o seu talento de organização instruiu as comunidades franciscanas do Quênia e de outras regiões rapidamente sobre o curso fomentando também e em grande medida a cooperação dentro da família franciscana. Deste trabalho nasceu a “Franciscan Family Association Kenya”. Rapidamente foi eleita coordenadora continental e foi mandada como representante da África para a Equipe Diretora Internacional. Tem de ser mencionado sobre tudo que organizou e dirigiu na África os preparativos para “Assis 94” tendo contribuído essencialmente para a cooperação substancial das irmãs e dos irmãos da África em Assis. Queremos felicitar Sr. Maria e agradecer tudo o que contribuiu ao CCFMC.

Para dar graças a Deus pelo Seu acompanhamento durante estes anos todos, celebramos uma véspera. Fr. Hermann escreve a tal respeito: “O céu abriu todos as suas dispensas e mandou chuva suficiente sobre toda a região como confirmação da festa!”

Nova Coordenação Nacional para o Quênia

Na primavera do ano em curso, Sr. Ching SFIC foi requisitada pela sua comunidade para voltar às Filipinas. Fr. Samson Mbugu Wangechi OFM Conv escreve sobre o modo de sucessão:

Após a saída de Sr. Ching, o secretariado do CCFMC do Quênia passou a ser dirigido por uma equipa. Nós, irmãos e irmãs, sentimos que uma equipa desperta idéias criativas e diversas possibilitando um trabalho vivo e frutífero com o CCFMC. Encontramo-nos já e vimos que temos de fortalecer os diferentes animadores nas regiões especialmente e que precisamos de informações sobre o que acontece nas várias regiões. Sendo assim, prevemos organizar um encontro de todos os coordenadores regionais dentro em breve. Esperamos que também representantes da Juventude Franciscana colaborem. Já podemos contar com a colaboração dum grupo de franciscanos anglicanos de Nairobi, que querem cooperar conosco.

À equipa da coordenação nacional pertencem: Sr. Paulina Venantius LSOSF, Sr. Grace LSOSJ, Fr. Hermann Borg OFM e Fr. Samson Mbugu Wangechi OFMConv.

 

Ásia/ Oceania

O Banguecoque, atualmente em crises constantes, foi em Maio do ano em curso o local do encontro da Família do CCFMC. Sr. Jeanne do secretariado continental de Manila convidou e aproximadamente 70 irmãs e irmãos de 15 países participaram. Então, passado algum tempo, apercebemo-nos que a faísca fez efeito. Bill Short OFM, com os seus impulsos, fez com que ficássemos altamente motivados. E assim é com alegria que vemos que os planos de ação em muitos lugares já são coroados de êxito.

China continental

Por primeira vez estavam presentes também irmãos e irmãs da China. O novo coordenador nacional do CCFMC escreve o seguinte: “A participação neste programa foi muito boa para nós. O encontro com tantos irmãos e tantas irmãs da Ásia e com representantes do Centro do CCFMC de Würzburg foi um estímulo e um grande enriquecimento. Pudemos, realmente, aprender muito das conferências, do intercâmbio e da liturgia rica e tantos outros aspectos do programa. O que nos impressionou especialmente foi a justificação do plano de ação. O que ouvimos foi tão convincente que nos vemos realmente obrigados a começar com a realização do programa do CCFMC no nosso país e oferecê-lo a todos interessados. Quando o carisma for compreendido e vivido vamos encontrar mais tarde também as possibilidades de desenvolver ações concretas que ajudem os habitantes do nosso país.

Considerando a nossa situação socio-política, a nossa liberdade limitada  e os nossos recursos limitados, ficou claro que sabemos muito pouco da nossa própria espiritualidade franciscana e do nosso carisma e que não conhecemos a família franciscana, quer dizer, pessoas, que vivem conosco no mesmo país, na mesma cultura e do mesmo carisma. Por isso queremos aproveitar todas as possibilidades para descobrir em comum o carisma de Francisco e Clara, interiorizando-o e dando vida ao mesmo no nosso redor.”

Hong  Kong e Macau

De Hong Kong informa Sr. Judith: “Voltei com o coração ardente de Banguecoque, e agora a minha superiora provincial encarregou-me para me dedicar a SFO de Macau. É uma comunidade com muitos membros idosos e é necessária muita energia entusiasmá-los novamente e ganhar novos membros. Espero muito por membros mais novos. Assim “o Senhor mesmo” abre-me novos caminhos. Rezem por mim que possa ser o Seu instrumento entregando-me à Sua conduta.

Tivemos em Hong Kong um encontro com o tema do consumismo, isto é, da atitude de consumir. Aproximadamente 60 participantes estiveram presentes ouvindo com interesse as minhas palavras que já pude pronunciar em Banguecoque. As experiências feitas aí enriqueceram muito o meu impulso. Quando, em Janeiro, for acompanhar os retiros espirituais anuais quero orientar-me infalivelmente na espiritualidade franciscana utilizando para tal as lições do CCFMC.”

Sri Lanka

Sr. Marlene, coordenadora nacional, escreve o seguinte: “A experiência de fraternidade que pudemos viver em Banguecoque foi magnífica para mim. Lembrou-me da comunidade a que nos convida a Santíssima Trindade, a pesar do caos que causamos no nosso mundo. O Espírito de Deus desperta em nós os desafios – sem dúvida uma tarefa gigantesca, à qual só podemos declarar a nossa disposição, o resto tem de ser feito por Deus mesmo!

No dia 25 de Outubro queremos celebrar em Sri Lanka o nosso jubileu franciscano comum. Será um dia de retiro sob o tema: A nossa contribuição franciscana para construir o Reino de Deus.

Esperamos que venham muitos participantes de todos os grupos franciscanos no nosso país.”

 

América Latina

De 17 a 19 de Outubro, a Família Franciscana do Brasil (FFB) celebrou os 800 anos do nascimento do movimento franciscano. No grande Fórum, que teve lugar em Brasília e no qual participaram cerca de 900 irmãs e irmãos de todos os ramos da FFB e de todas as regiões do país, bem como uns 20 representantes de outros países da América Latina, trataram-se a memória e o reviver do sonho de Francisco e de Clara de Assis. O mundialmente conhecido historiador e perito em assuntos franciscanos, o Prof. Mario Cayota do Uruguai, membro da Terceira Ordem e actualmente embaixador do seu país junto do Vaticano, fez uma introdução fulminante apresentando um resumo da presença da família franciscana na história e no presente da América Latina, seguindo-se um intercâmbio vivo em 10 grupos de trabalho incluindo apresentações impressionantes e cheias de fantasia. O fim do Fórum foi marcado por uma celebração viva na paróquia dos capuchinhos de Brasília, uma marcha de duas horas pelas ruas (infelizmente vazias no domingo) da capital ao Palácio  Presidencial onde a carta, que se segue intitulada “Carta aos Dirigentes dos Povos”,  foi entregue ao vicepresidente.

Um relato extenso sobre o Fóruma bem como  sobre a Assembleia Geral da Coordenação da América Latina do CCFMC precedente  incluir-se-ão nas  CCFMC Notícias do próximo mês. 

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CARTA DE BRASÍLIA

Excelentíssimos Senhores Governantes

Francisco de Assis em seu tempo, movido pelo anseio de concretizar o projeto de Deus em relação a toda a criação, escreveu uma carta aos governantes. Hoje, nós da Família Franciscana do Brasil, da América Latina e do Caribe, reunidos na celebração dos 800 anos do nascimento do Carisma Franciscano, nos dirigimos aos Senhores Chefes de Estado e a todos os dirigentes e mandatários das nações do continente da esperança com a nossa saudação de PAZ E BEM!

Os franciscanos e franciscanas participantes deste congresso sentem-se honrados e felizes de serem filhos e filhas destas terras exuberantes em riquezas naturais, com potencial de oferecer uma vida digna para todos os seus habitantes. Nossos povos refletem por todo esse chão uma diversidade étnica e cultural, manifestada na acolhida, solidariedade, alegria e capacidade de convivência, fruto da imensa riqueza humana de suas populações.

Oriundos de todos os cantos ouvimos dois pungentes clamores: um é o brado da Mãe Terra e outro a queixa lancinante dos milhões de irmãs e irmãos famintos, doentes, marginalizados, excluídos e condenados a morrer antes do tempo.

Há séculos, nos comportamos como exploradores da terra, não entendendo nossa vocação de cuidadores do Planeta. Hoje, os recursos naturais de nossos países estão sendo explorados e devastados indiscriminadamente, expulsando comunidades inteiras de suas terras em favor do latifúndio, destruindo a biodiversidade pelo uso abusivo dos transgênicos e biocombustíveis, ameaçando a segurança alimentar. Esse modelo de desenvolvimento perverso que contamina e destrói os recursos hídricos, a terra e o ar é o maior responsável pelo aquecimento global.

A ambição pelo poder e os lucros abusivos do mercado e da dívida externa têm como conseqüências o aumento da injustiça social, da marginalização, gerando extermínio de grupos indígenas, exclusão do povo negro e roubando de nossa juventude a perspectiva de futuro.

Nesta ocasião em que celebramos os 800 anos do nascimento do Carisma Franciscano, sentimo-nos co-responsáveis e comprometidos com a ética e a justiça para que haja paz e vida em abundância. Outro mundo é necessário, urgente e possível! Esperamos, pois, que os anseios e as reivindicações dos nossos povos por seus direitos econômicos, políticos, sociais, culturais e ambientais prevaleçam sobre os interesses do sistema neoliberal.

Por isso, senhores governantes, em nome do Deus da vida, da memória viva de Francisco e Clara de Assis, e de nossa vocação à fraternidade, reivindicamos uma nova ordem sócio-econômica e política que priorize:

·     Um desenvolvimento que respeite a dignidade de todas as criaturas;

·     Uma economia solidária que valorize e promova a pessoa humana;

·     Um autêntico processo democrático que assegure a autodeterminação dos povos e a efetiva integração continental;

E se atuarmos nesta perspectiva, com certeza, o sonho de Francisco e Clara e Assis se concretizará no chão da América Latina e Caribe, poderemos contar com as bênçãos de Deus.

Brasília, 19 de outubro de 2008

Firmado pela Direção da FFB

 

 


 


Carisma 2008/2009 – Intercâmbio de idéias e impulsos

 

Anton Rotzetter OFMCap

O Segredo do ser humano: Ser filho/a de Deus

Cheio de alegria e fortalecido pelas palavras do bispo, o homem de Deus levantou-se e entregou-lhe  o dinheiro com as seguintes palavras: “Senhor, não só o dinheiro, que tenho das suas posses, quero devolver com o coração alegre, mas também as vestimentas.”.  E  dirigiu-se a uma das câmaras espiscopais, despiu toda a roupa que tinha das posses do pai e pôs o dinheiro encima da mesma. Perante o olhar do bispo, do pai e de todos os presentes saiu nu e disse: “Oiçam todos e compreendam! Até agora chamava a  meu pai  Petrus Bernardone; mas, porque me decidi a servir a Deus devolvo-lhe o dinheiro, pelo qual estava preocupado, e todos os vestidos que possuia dele. A partir de agora quero dizer: ”Pai nosso que estais no Ceu, já não pai Petrus Bernardone.” ... Quando o bispo pensou bem na decisão do homem, admirando o seu zelo e a sua valentia, abraçou-o e cobriu-o com o seu manto. Pois reconheceu que as suas  acções se baseavam numa vontade de Deus, e apercebeu-se de que o segredo naquilo que tinha visto, não era  pequeno. E assim se tornou, apartir de aí,  o seu coadjutor encorajando-o e ajudando-o, estimando-o e amando-o de todo o coração. (Leg3C 20)

O representante da Igreja está representado aqui como um homem compreensivo. Se o foi realmente, é desconhecido. Tem de ser assim que o bispo compreenda Francisco cobrindo-o com o seu manto. Pois também a essência da igreja não consiste em coroa e trono, riquezas e luxos. Nesta representação positiva do bispo de Assis reside, pois, a primeira provocação.

Francisco aponta para o essencial da Igreja: a relação directa do homem com Deus. Nem ela mesma nem o pai, nem a tradição rica nem a herança da família devem intrometer-se entre os homens e Deus. O bispo, seja como ele pensar, tem de reconhecer a nudez da existência humana ante Deus, admirar “o segredo não pequeno” e pôr o manto como protecção e resguardo por cima dele. 

Francisco sente-se como filho de Deus – e esta é a segunda provocação do texto: É Deus só de quem, por quem e apartir de quem ele vive. Deus é o fundamento, o único e o todo, a substância que o alimenta e mantém vivo – mais não é necessario, também não um pai terrestre.

Até tem de se dizer o seguinte: só no momento em que Deus se torna completamente tudo na vida dum ser humano, o mesmo converte-se realmente em ser humano.  

Perguntas:

  1. Onde viste representantes da Igreja que se apresentaram como o bispo de Assis no texto acima?
  2. Como descreverias o segredo da tua vida?
  3. Como poderia ser actualizado o segredo de se ser o filho de Deus para tí próprio e para o nosso tempo?

 


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